O sorteio de nomes tem suas raízes na Grécia Antiga, berço da democracia. Em Atenas, no século V a.C., os cidadãos utilizavam o klèrôtèrion, uma engenhosa máquina de pedra dotada de fendas e tubos, para designar aleatoriamente os magistrados, os membros do Conselho dos Quinhentos (a Boulé) e os jurados do tribunal da Helieia. Aristóteles considerava que o sorteio era o mecanismo democrático por excelência, enquanto a eleição se aproximava mais da aristocracia. Cerca de 70% dos cargos públicos atenienses eram atribuídos por sortição, garantindo que qualquer cidadão voluntário pudesse participar do governo da cidade sem precisar de fortuna, eloquência ou redes de influência.
Os romanos também praticavam sorteios, especialmente para determinar a ordem de votação das centúrias nos comícios centuriatos e para atribuir províncias aos governadores. Mais tarde, a República de Veneza desenvolveu um sistema particularmente sofisticado para eleger seu Doge: um processo de dez etapas alternando votações e sorteios entre os membros do Grande Conselho, concebido para impedir qualquer manipulação e garantir a imparcialidade. Esse sistema, utilizado por mais de cinco séculos (de 1268 a 1797), é considerado pelos historiadores como um dos mecanismos eleitorais mais engenhosos já inventados.
Na Idade Média e no Renascimento, o sorteio de nomes servia em diversos contextos civis e religiosos. Na França, as comunidades religiosas sorteavam as tarefas e os cargos. Nas cidades italianas como Florença, a "tratta" consistia em sortear os nomes dos magistrados de bolsas contendo os nomes dos cidadãos elegíveis — uma prática que deu origem à palavra "loteria" (do italiano "lotto", destino). Na Espanha, as "insaculaciones" aragonesas do século XV utilizavam bolas de cera contendo nomes, sorteadas de um saco, para designar os representantes municipais.
A era moderna viu o sorteio de nomes encontrar novas aplicações. Na França, o recrutamento militar por sorteio foi instituído pela Lei Jourdan de 1798: os jovens tiravam um número de um chapéu, e aqueles que obtinham um número baixo partiam para o serviço militar. Esse sistema perdurou em diversas formas até 1905. Nos Estados Unidos, a loteria do recrutamento de 1969 para a Guerra do Vietnã marcou profundamente a sociedade: as datas de nascimento eram sorteadas para determinar a ordem de convocação, um evento televisionado que afetou milhões de famílias americanas.
Do ponto de vista científico, o sorteio de nomes se baseia hoje em algoritmos de embaralhamento como o Fisher-Yates (também conhecido como Knuth shuffle), publicado em 1938 por Ronald Fisher e Frank Yates. Esse algoritmo garante que cada permutação possível de uma lista tenha exatamente a mesma probabilidade de ser produzida, tornando-o o método de referência para sorteios justos. As implementações digitais modernas utilizam geradores de números pseudoaleatórios criptográficos (CSPRNG), como a API Web Crypto dos navegadores, que oferecem um nível de aleatoriedade muito superior ao simples Math.random() e tornam qualquer previsão ou manipulação praticamente impossível.
Hoje, o sorteio de nomes vive um renascimento democrático. A Convenção Cidadã pelo Clima de 2019-2020 na França reuniu 150 cidadãos sorteados para propor medidas contra as mudanças climáticas. A Irlanda utilizou assembleias cidadãs sorteadas para deliberar sobre o casamento homoafetivo (2015) e o aborto (2016-2018), levando a referendos históricos. Na Bélgica, o parlamento da comunidade germanófona criou em 2019 um conselho cidadão permanente composto por membros sorteados. Essas experiências mostram que o sorteio de nomes, longe de ser um simples instrumento lúdico, continua sendo uma poderosa ferramenta de justiça e participação cidadã.